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terça-feira, 4 de agosto de 2009

POR UMA PECUÁRIA SUSTENTÁVEL


Fazenda Bang-Bang mostra que é possível criar gado com responsabilidade
Cristiane de Cássia
ccassia@oglobo.com.br
Uma fazenda em São José do Xingu, no Mato Grosso, vem mostrando que é possível viver de pecuária e agricultura nesse país sem desmatar floresta, sem trabalho escravo e com responsabilidade social. Apesar do nome que remete a tempos em que os conflitos eram resolvidos à bala, a Fazenda Bang-Bang busca soluções ambientais e sociais através de muita parceria.
A recomposição de matas às margens de rios, a capacitação de funcionários, o cuidado com o manejo do gado e com o lixo são investimentos que a fazenda faz levando em conta não só a necessidade de corrigir erros do passado, mas também visando a um mercado que valoriza a pecuária sustentável.
- A gente quer se habilitar para o mercado europeu e o consumidor brasileiro que entende a importância das ações de redução de impactos socioambientais. Já vendemos um tipo de carne exclusivo para o Grupo Pão de Açúcar com valor 10% maior por conta desse trabalho - contou Luiz Castelo, proprietário da Bang-Bang, que tem 13,4 mil hectares onde são criadas dez mil cabeças de gado e plantados milho e soja.
Castelo se refere ao selo Taeq (que significa "viver em equilíbrio"), resultado de um programa mantido há três anos pela rede Pão de Açúcar, que hoje abrange 47 pequenos e médios criadores de gado.
O projeto envolve não só cuidados no manejo dos animais, mas melhor gestão, relações com a comunidade e respeito ao meio ambiente.
Outras parcerias fazem parte da história de sucesso da Bang-Bang. Uma delas é o apoio técnico do Instituto SocioAmbiental (ISA), que possibilitou em menos de dois anos a recuperação de 200 hectares de área desmatada às margens de 49 nascentes do Rio Xingu, que faz parte da bacia amazônica. Outras fazendas da região seguem o mesmo caminho com diversas motivações: - Há fazendeiros que reflorestam depois de serem multados, outros que se preocupam com a falta de água no futuro e um grupo que se motiva com o mercado que agrega valor ao produto com adequação socioambiental - explicou Rodrigo Junqueira, do ISA, coordenador do programa Xingu para frear o desmatamento que atingiu 1/3 dos rios matogrossenses.
O maior problema é que muitas fazendas de pequeno porte não têm recursos para investir. O próprio Castelo diz que já tentou financiamento com bancos ligados ao governo, mas desistiu porque levaria anos para receber a verba.
Sozinho, investiu R$ 174 mil no plantio de 70 mil mudas, fora a instalação de cercas, feitas de concreto devido à dificuldade de se adquirir lascas de madeira com origem legal.
Sem espaço suficiente para o viveiro de mudas, a fazenda contribuiu com a comunidade já a partir do plantio.
Funcionários e vizinhos receberam sementes adquiridas por Castelo em comunidades indígenas e R$ 1 por muda produzida. A comunidade também participa de cursos técnicos oferecidos numa escola com biblioteca e acesso à internet montada dentro da Bang-Bang com parceria do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. A escola foi aberta originalmente para alfabetizar 15 de seus 25 funcionários e hoje apenas três têm dificuldades em ler e escrever.
Além das letras, os funcionários são educados para terem cuidados básicos, como não beber água direto dos córregos e fazer a separação do lixo, que só não avançou mais devido à falta de cooperativas de reciclagem na cidade.
Mas Castelo acredita que tudo vai se resolver: - Muitas fazendas já cometeram erros no passado e querem corrigi-los. Só precisam de recursos, técnica e prazo.
FAZENDA BANG-BANG
www.fazendabang-bang.com.br

sábado, 9 de maio de 2009

Forragicultura: Sistemas agroflorestais e a conservação do solo

Os sistemas agroflorestais têm sido preconizados como sustentáveis, ou seja, capazes de produzir para o presente momento, mantendo os fatores ambientais, econômicos e sociais, em condições de serem utilizados pelas gerações futuras. Estes sistemas também têm sido divulgados como uma solução alternativa para a recuperação de áreas degradadas, envolvendo não só a reconstituição das características do solo, como também a recuperação da terra, também denominado sítio, o qual envolve todos os fatores responsáveis pela produção em harmonia com o ecossistema: o solo, a água, o ar, o microclima, a paisagem, a flora e a fauna.
Este tipo de uso do solo é uma forma de plantio na qual se combinam espécies arbóreas lenhosas (frutíferas e/ou madeireiras) com cultivos agrícolas e/ou animais, de forma simultânea ou em seqüência temporal e que interagem econômica e ecologicamente. E um dos aspectos positivos é a sustentabilidade desses sistemas com a presença de árvores, que têm a capacidade de capturar nutrientes de camadas mais profundas do solo, reciclando com uma maior eficiência e uma cobertura maior da terra.
Os sistemas agroflorestais têm sido divulgados como uma alternativa para o melhoramento da produtividade de sítios pobres ou degradados.Os sistemas agroflorestais (SAF’s) podem tornar produtivas áreas degradadas, melhorando sua função social e ecológica. A liteira produzida pelos componentes agroflorestais é um forte agente promotor desta recuperação. Os sistemas agroflorestais como alternativas de uso da terra promovem o aumento no nível de carbono orgânico no solo, quando comparados a florestas primárias.Os sistemas agroflorestais acumulam carbono ao longo do tempo, que podem recuperar quantidades perdidas durante a derruba e queima de florestas primárias, podendo funcionar como banco de estoque de carbono, recuperando entre 54% e 82% do carbono contido na floresta, num período de 15 anos. As vantagens para o uso deste tipo de sistema de cultivo em relação aos convencionais, tanto econômicas, como ambientais, são várias, entre as quais a combinação de produtos de mercado e de subsistência que permite limitar os riscos assumidos pelos agricultores familiares, sejam eles riscos climáticos ou riscos de mercado; a diversidade de espécies permite a obtenção de um número maior de produtos e/ou serviços a partir de uma mesma unidade de área, tanto para a subsistência da família quanto para o mercado; a área com sistema agroflorestal pode ser usada permanentemente, minimizando a necessidade de derruba e queima de novas áreas e aumentando as chances de fixação do homem no campo; e a alternativa para aproveitamento de áreas já alteradas ou degradadas. Também diminui a demanda de fertilizantes em razão da eficiente ciclagem e da adubação orgânica, melhora as propriedades físicas e biológicas do solo e permite a preservação da biodiversidade.Área degradada é sinônimo de terra improdutiva, envolvendo alterações negativas no clima, hidrologia, paisagem, flora e fauna. É, portanto, um conceito mais amplo do que a degradação da fertilidade do solo, a qual reduz a capacidade de suporte do crescimento de plantas em bases sustentáveis, sob dadas condições de clima e outras relevantes propriedades da terraDentre as inúmeras implicações entre os SAF e o controle da erosão dos solos destacam-se os efeitos dos SAFs na manutenção da fertilidade do solo deveriam ser considerados conjuntamente com os efeitos diretos no controle da erosão, os SAFs apresentam potencial para controle da erosão por meio da cobertura fornecida pelas copas e serapilheira, em adição ao papel das árvores como barreiras para o escorrimento superficial de água; em regiões de clima seco, o controle da erosão deveria ser avaliado em conjunto com o papel das árvores no manejo da água; sistemas silvipastoris deveriam ser incluídos quando se avalia o potencial de sistemas para o controle da erosão.A matéria orgânica do solo fornecida pelos sistemas agroflorestais é de fundamental importância para a recuperação das áreas degradadas, as quais podem ser assim resumidas tendo como importâncias principais boas condições físicas do solo, incluindo a capacidade de retenção de água; provem um balanceado do suprimento de nutrientes, protegendo-os contra a lixiviação até serem liberados pela mineralização; permite o melhor uso de fertilizantes por meio do melhoramento da capacidade de troca catiônica. Até o momento, as pesquisas têm demonstrado que a produção de biomassa que retorna ao solo, em sistemas agroflorestais é equiparada àquela produzida sob vegetação natural, quando se considera a mesma zona climática.
Os sistemas agroflorestais são preconizados como alternativas á monocultura agrícola, por serem capazes de manter a fertilidade dos solos e a sustentabilidade. Em estudos realizados no cerrado, foi concluído que pode ocorrer melhoria da fertilidade do solo nesses sistemas, principalmente devido a maior produção de fitomassa.Sabemos que o fósforo é fundamental para a atividade metabólica de qualquer ser vivo e estará disponível se assim se fizer necessário. Há muito fósforo estocado em grande parte dos solos tropicais, embora em muitos deles a análise de laboratório acuse somente traços de fósforo disponível. Fósforo não é problema, basta que criemos condições para que seja disponibilizado. A maior fonte de fósforo, viável para uma agricultura realmente sustentável, é a matéria orgânica, e torna-se disponível quando dinamizamos o sistema e criamos condições propícias para a vida do solo.Com a avaliação da biota do solo em modelos agroflorestais já foram constatados que os sistemas contribuem para a recuperação dos solos degradados de pastagem de forma mais rápida e eficiente do que a regeneração natural, observando-se também uma relação positiva entre densidade, porosidade total e umidade do solo, sugerindo que o papel da macrofauna do solo como um forte componente dos sistemas agroflorestais.A produção de serrapilheira em sistema agroflorestal consorciando castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) e cupuaçu (Theobroma grandiflorum) representou uma fonte de ingresso de nutrientes para a produção de frutos de cupuaçu e a produção de biomassa aérea da castanha-do-Brasil não foi afetada pela consorciação, em estudo feito em solo de baixa fertilidade no estado de Rondônia.Considerando-se as características do SAFs pode-se concluir que esses são os sistemas mais apropriados ás condições ambientais dos trópicos úmidos de solos quimicamente pobres.No entanto, sistemas agroflorestais não são uma panacéia para a solução de todos os problemas. Faz-se necessário estar sempre atento ao mercado, e produzir somente o que tiver maior possibilidade de comercialização. Os sistemas precisam ser compostos por espécies com as quais os produtores tenham alguma intimidade.Autores: Marilia Locatelli, engenheira florestal, pesquisadora da Embrapa Rondônia, Porto Velho (RO), Rafael de Souza Macedo, estagiário, Abadio Hermes Vieira, engenheiro florestal, pesquisador da Embrapa Rondônia, Porto Velho (RO)Marilia Locatelli, Rafael de Souza Macedo e Abadio Hermes VieiraFonte: Embrapa Rondônia Os sistemas agroflorestais têm sido preconizados como sustentáveis, ou seja, capazes de produzir para o presente momento, mantendo os fatores ambientais, econômicos e sociais, em condições de serem utilizados pelas gerações futuras. Estes sistemas também têm sido divulgados como uma solução alternativa para a recuperação de áreas degradadas, envolvendo não só a reconstituição das características do solo, como também a recuperação da terra, também denominado sítio, o qual envolve todos os fatores responsáveis pela produção em harmonia com o ecossistema: o solo, a água, o ar, o microclima, a paisagem, a flora e a fauna.Este tipo de uso do solo é uma forma de plantio na qual se combinam espécies arbóreas lenhosas (frutíferas e/ou madeireiras) com cultivos agrícolas e/ou animais, de forma simultânea ou em seqüência temporal e que interagem econômica e ecologicamente. E um dos aspectos positivos é a sustentabilidade desses sistemas com a presença de árvores, que têm a capacidade de capturar nutrientes de camadas mais profundas do solo, reciclando com uma maior eficiência e uma cobertura maior da terra.Os sistemas agroflorestais têm sido divulgados como uma alternativa para o melhoramento da produtividade de sítios pobres ou degradados.Os sistemas agroflorestais (SAF’s) podem tornar produtivas áreas degradadas, melhorando sua função social e ecológica. A liteira produzida pelos componentes agroflorestais é um forte agente promotor desta recuperação. Os sistemas agroflorestais como alternativas de uso da terra promovem o aumento no nível de carbono orgânico no solo, quando comparados a florestas primárias.Os sistemas agroflorestais acumulam carbono ao longo do tempo, que podem recuperar quantidades perdidas durante a derruba e queima de florestas primárias, podendo funcionar como banco de estoque de carbono, recuperando entre 54% e 82% do carbono contido na floresta, num período de 15 anos. As vantagens para o uso deste tipo de sistema de cultivo em relação aos convencionais, tanto econômicas, como ambientais, são várias, entre as quais a combinação de produtos de mercado e de subsistência que permite limitar os riscos assumidos pelos agricultores familiares, sejam eles riscos climáticos ou riscos de mercado; a diversidade de espécies permite a obtenção de um número maior de produtos e/ou serviços a partir de uma mesma unidade de área, tanto para a subsistência da família quanto para o mercado; a área com sistema agroflorestal pode ser usada permanentemente, minimizando a necessidade de derruba e queima de novas áreas e aumentando as chances de fixação do homem no campo; e a alternativa para aproveitamento de áreas já alteradas ou degradadas. Também diminui a demanda de fertilizantes em razão da eficiente ciclagem e da adubação orgânica, melhora as propriedades físicas e biológicas do solo e permite a preservação da biodiversidade.Área degradada é sinônimo de terra improdutiva, envolvendo alterações negativas no clima, hidrologia, paisagem, flora e fauna. É, portanto, um conceito mais amplo do que a degradação da fertilidade do solo, a qual reduz a capacidade de suporte do crescimento de plantas em bases sustentáveis, sob dadas condições de clima e outras relevantes propriedades da terraDentre as inúmeras implicações entre os SAF e o controle da erosão dos solos destacam-se os efeitos dos SAFs na manutenção da fertilidade do solo deveriam ser considerados conjuntamente com os efeitos diretos no controle da erosão, os SAFs apresentam potencial para controle da erosão por meio da cobertura fornecida pelas copas e serapilheira, em adição ao papel das árvores como barreiras para o escorrimento superficial de água; em regiões de clima seco, o controle da erosão deveria ser avaliado em conjunto com o papel das árvores no manejo da água; sistemas silvipastoris deveriam ser incluídos quando se avalia o potencial de sistemas para o controle da erosão.A matéria orgânica do solo fornecida pelos sistemas agroflorestais é de fundamental importância para a recuperação das áreas degradadas, as quais podem ser assim resumidas tendo como importâncias principais boas condições físicas do solo, incluindo a capacidade de retenção de água; provem um balanceado do suprimento de nutrientes, protegendo-os contra a lixiviação até serem liberados pela mineralização; permite o melhor uso de fertilizantes por meio do melhoramento da capacidade de troca catiônica. Até o momento, as pesquisas têm demonstrado que a produção de biomassa que retorna ao solo, em sistemas agroflorestais é equiparada àquela produzida sob vegetação natural, quando se considera a mesma zona climática.Os sistemas agroflorestais são preconizados como alternativas á monocultura agrícola, por serem capazes de manter a fertilidade dos solos e a sustentabilidade. Em estudos realizados no cerrado, foi concluído que pode ocorrer melhoria da fertilidade do solo nesses sistemas, principalmente devido a maior produção de fitomassa.Sabemos que o fósforo é fundamental para a atividade metabólica de qualquer ser vivo e estará disponível se assim se fizer necessário. Há muito fósforo estocado em grande parte dos solos tropicais, embora em muitos deles a análise de laboratório acuse somente traços de fósforo disponível. Fósforo não é problema, basta que criemos condições para que seja disponibilizado. A maior fonte de fósforo, viável para uma agricultura realmente sustentável, é a matéria orgânica, e torna-se disponível quando dinamizamos o sistema e criamos condições propícias para a vida do solo.Com a avaliação da biota do solo em modelos agroflorestais já foram constatados que os sistemas contribuem para a recuperação dos solos degradados de pastagem de forma mais rápida e eficiente do que a regeneração natural, observando-se também uma relação positiva entre densidade, porosidade total e umidade do solo, sugerindo que o papel da macrofauna do solo como um forte componente dos sistemas agroflorestais.A produção de serrapilheira em sistema agroflorestal consorciando castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) e cupuaçu (Theobroma grandiflorum) representou uma fonte de ingresso de nutrientes para a produção de frutos de cupuaçu e a produção de biomassa aérea da castanha-do-Brasil não foi afetada pela consorciação, em estudo feito em solo de baixa fertilidade no estado de Rondônia.Considerando-se as características do SAFs pode-se concluir que esses são os sistemas mais apropriados ás condições ambientais dos trópicos úmidos de solos quimicamente pobres.
No entanto, sistemas agroflorestais não são uma panacéia para a solução de todos os problemas. Faz-se necessário estar sempre atento ao mercado, e produzir somente o que tiver maior possibilidade de comercialização. Os sistemas precisam ser compostos por espécies com as quais os produtores tenham alguma intimidade.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

CIGARRINHA DAS PASTAGENS

As cigarrinhas são uma das principais pragas das pastagens. Causam grande prejuízo à pecuária nacional, reduzem a capacidade de suporte e degradam pastagens formadas pelas mais diversas gramíneas em vários pontos do território nacional. Estima-se que elas ocorrem em cerca de 10 milhões de hectares de gramíneas, provocando prejuízo de até 90%, dependendo das espécies, do tipo de gramínea, das condições climáticas e do manejo do pasto. A diferenciação das espécies é feita na fase adulta. a Deois flavopicta apresenta duas listras transversais amarelas em cada asa e o corpo avermelhado (Figura 1).

Deois flavopicta

A espécie Zulia entreriana possui uma maior variabilidade no padrão alar, que vai desde uma coloração escura com uma listra transversal em cada asa até a formação triangular de três faixas amarelas em cada asa.
FASES DE DESENVOLVIMENTO
As cigarrinhas, durante o desenvolvimento, passam por três diferentes fases: ovo, ninfa e adulto. Na fase de ovo, quando as condições de umidade e temperatura são baixas, entram em diapausa (quiescência), podendo permanecer nesse estágio até 200 dias.
Na fase jovem, (ninfas) não possuem asas, são de coloração branco-amareladas e permanecem fixas na base das plantas, próximo ao solo, sugando a seiva e produzindo espuma branca típica(Figura 2), que envolve todo o seu corpo até a emergência dos adultos.
Espuma em que são encontradas ninfas das cigarrinhas
Na fase adulta, três ou quatro dias após a emergência, a fêmea começa a desovar, sendo que na 1ª postura coloca cerca de 30 a 50 ovos. O ciclo de ovo a ovo varia com as diferentes espécies, mas, em geral, dura ao redor de 60 dias (Tabela 1).

TABELA 1 - Ciclo biológico de Zulia entreriana(Berg.)Deois flavopicta(Stal) e Deois schach(Fabr.)(Alves, 1986).


O número de gerações (2 a 4) depende da duração desse ciclo de vida e da duração do período chuvoso. Para o Estado de São Paulo, o pico populacional ocorre entre fevereiro e março, sendo que os ovos colocados a partir de abril entram em quiescência por falta de umidade adequada do solo. Portanto, essa flutuação é dependente do balanço hídrico da região.
DANOS ÀS PASTAGENS
As cigarrinhas causam danos em diversas gramíneas utilizadas em pastagens, sendo as mais importantes pertencentes aos gêneros Brachiaria, Panicum e Cenchrus. As ninfas, persistem por mais tempo em contato com as plantas e são as principais depauperadoras das gramíneas na fase inicial, sugando a seiva continuamente, desde a eclosão dos ovos até a fase adulta. Devido ao hábito de sugar a seiva continuamente, as ninfas depauperam rapidamente a planta causando seu desequilíbrio hídrico e obrigando-a a absorver um volume maior de água do solo. Os adultos também sugam a seiva das plantas e ao mesmo tempo injetam uma substância tóxica que causa o bloqueio do floema e xilema. Sob pastejo e atacadas pelas cigarrinhas, as plantas, após um certo período começam a amarelar, o que resulta na "queima" de toda a pastagem e na diminuição de sua capacidade de suporte. Calcula-se que 25 cigarrinhas adultas por metro quadrado, em 10 dias, reduzem em 30% a produção do pasto atacado. Em média admite-se prejuízo de 15% na produção de massa verde. Acredita-se que o controle deve ser iniciado após a constatação de uma população média entre 20 e 25 ninfas grandes por metro , para se evitar grandes danos econômicos.
MANEJO DAS PASTAGENS
Az medidas seguintes tem como objetivo minimizar o ataque, ou diminuir a incidência das cigarrinhas nas pastagens.
NA INSTALAÇÃO DA PASTAGEM: - preferir a diversificação de espécies forrageiras, mantendo-se pelo menos 30% de espécies resistentes e 70% de espécies suscetíveis (Tabela 2); - para solos mais férteis recomendam-se, como resistentes, os capins Jaraguá, Colonião, Setária, Estrela, Brizantão; - para solos pobres, os capins Gordura e Andropogon; consorciação de gramíneas e leguminosas.
PASTAGENS ESTABELECIDAS: - dividir em piquetes, adotando-se pastejo alto, com rotação e rodízios adequados, observando-se as recomendações de altura do capim; - manutenção de áreas de refúgio para predadores (matas e capoeiras) ao longo das grotas e manutenção de faixas de vegetação nativa e/ou espécies de plantas que forneçam alimentos e abrigos a pássaros insetívoros (anu, bem-te-vi, andorinha, galinha-de-angola) e também outros grupos de predadores, como aranha e insetos.
TABELA 2 - Nível de resistência à cigarrinhas das pastagens, das gramíneas disponíveis comercialmente (adaptado de Cosenza, 1981).


CONTROLE BIOLÓGICO
Para o controle das cigarrinhas, devem-se evitar: a) queima das pastagens; b) pastejo excessivo ou superpastejo; c) utilização de inseticidas; d) aplicação do fungo Metharhizium em áreas que receberam fungicidas ou herbicidas (NAVES, 1980). De-marcar as áreas de maior infestação na época do pico populacional (fevereiro), quando haverá maior concentração de ovos no solo. A partir de novembro (1ª geração da praga), devem-se realizar amostragens, com rede entomológica nos fogos anteriormente demarcados e, quando se constatar a presença dos primeiros adultos, fazer aplicação com inseticida. O controle biológico ou microbiano é realizado com aplicações do fungo Metharhizium anisopliae (produto Metarril), executadas com o aparecimento da segunda e terceira gerações de ninfas, que constituem a fase mais suscetível do ciclo biológico do inseto, utilizando-se de preferência, pulverizadores terrestres (200 a 300 litros de água /hectare). Este controle torna-se mais eficaz se for executado em pastagens com 25 a 4 0 cm de altura, com objetivo de evitar a ação indesejável da radiação ultra violeta sobre o fungo. Condição de elevada umidade, seguida de veranicos, e temperatura na faixa de 25° a 27°C são também indispensáveis para obtenção de bons resultados no controle. Vários fatores influenciam a ação do fungo, entre os quais as condições microclimá- ticas da região, raça do fungo, quantidade do produto e manejo da pastagem. É necessário considerar esses aspectos a fim de obter êxito no tratamento biológico. De acordo com ALVES (1998), o fungo Batkoa ocorre naturalmente sobre as cigarrinhas das pastagens, podendo ser disseminado com o uso de cadáveres das cigarrinhas. Trata-se de fungo muito eficiente.
Eng.ª Agr.ª Heloísa Sabino PratesSAA/CDA - Campinas - SP

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Importância do sal mineral na nutrição de ovinos

A mineralização dos ovinos é uma prática zootécnica viável do ponto de vista prático e econômico, principalmente quando deseja-se aumentar a produtividade desta espécie animal, sendo indispensável para os diferentes sistemas de produção de todas as regiões do Brasil (SILVA SOBRINHO, 2001). A maioria das deficiências minerais que ocorrem em ruminantes está associada a regiões específicas, diretamente relacionada às características do solo. Neste sentido, animais criados em pastagens provenientes de solos que tenham algum tipo de deficiência mineral e que não recebam nenhum tipo de mineralização, provavelmente apresentarão sintomas de carência de um ou mais minerais. No Brasil, a deficiência de fósforo é a mais comum em todos os ruminantes criados em pastagens. Aproximadamente, 5% do peso vivo do animal é constituído de minerais, podendo esta concentração variar em função da idade, espécie, raça e do próprio indivíduo (MARTIN, 1993). Entre os minerais, alguns são exigidos em maior quantidade pelo organismo dos animais, são os chamados macro-minerais: cálcio, fósforo, sódio, cloro, magnésio, potássio e enxofre. Por outro lado, existem os micro-minerais que são exigidos em menores quantidades, sendo: zinco, ferro, cobre, selênio, cobalto, molibdênio, manganês e flúor. É importante destacar que todos os macro e micro-minerais são igualmente importantes e que a falta de um deles limita o desempenho animal como um todo. O sal mineral deve ser oferecido durante todo o ano, tanto para animais criados em confinamento como em pastagens. Na época de maior disponibilidade de pasto (período chuvoso), a suplementação deve ser mantida, pois diversos trabalhos científicos provaram que nesta época os animais necessitam de maior aporte de minerais, já que apresentam maior potencial para ganho de peso devido à maior oferta de proteína e energia proveniente das forragens. Como a maioria dos produtores não mineraliza seus rebanhos na época das chuvas (devido à falta de cochos cobertos ou por desinformação), o início do período da seca é caracterizado por consumo excessivo de suplementos minerais, quando fornecidos. Desta forma, devem ser tomadas precauções para diminuir os riscos de intoxicação dos animais, haja vista a quantidade de uréia que geralmente é incluída nestes suplementos (UCHOA, 2003). Ovinos criados em pastagens geralmente apresentam carências nutricionais múltiplas, principalmente na época seca do ano. Sendo assim, o fornecimento de misturas minerais múltiplas que disponibilizem proteína, energia e minerais constitui uma opção viável para suprir a necessidade de nitrogênio não protéico dos microorganismos do rúmen, além de favorecer o consumo e a digestão da forragem por meio do estímulo da ação fermentativa microbiana ruminal (PAULINO, 1999). No Brasil, já existem suplementos minerais formulados especificamente para ovinos, o que não justifica usar suplementos de outras espécies animais, como os de bovinos. Além de não atender as exigências dos ovinos, os suplementos formulados para bovinos não podem ser utilizados devido aos níveis de cobre, o que acarreta, muitas vezes, em intoxicação seguida de morte dos ovinos, já que esses animais são sensíveis a altas concentrações deste mineral. Outra questão importante é o manejo do cocho, pois de nada adianta oferecer suplementos minerais de alta qualidade se não houver possibilidade de consumo adequado. Por isso, algumas recomendações devem ser adotadas no manejo dos cochos destinados à suplementação mineral dos rebanhos ovinos: - Verificar se a altura do cocho permite que todos os animais daquela categoria tenham livre acesso aos suplementos; - Proteger os suplementos contra perdas causadas por ventos e chuvas; neste sentido, os cochos cobertos são as melhores opções; - Inserir os cochos em locais de fácil acesso pelos animais, em áreas onde eles pastejem normalmente e que não sofram alagamentos em épocas chuvosas; - Fornecer os suplementos a cada 3 dias, no máximo, para evitar perdas e que se tornem compactados, úmidos, mofados e contaminados com fezes e urina; - Fornecer suplementos que sejam bem aceitos pelos animais; - Atentar quanto ao fornecimento constante dos suplementos. Assim, é importante destacar a necessidade de suplementação mineral dos rebanhos ovinos, utilizando produtos específicos para esta espécie animal e que sejam oferecidos constantemente, visando melhorar os índices produtivos e o desempenho dos animais.

Pesquisa quer viabilizar torta de mamona para ração animal

A torta de mamona é usada no Brasil apenas como adubo orgânico em jardinagem por conter altos teores de nitrogênio, potássio e fósforo e ainda por agir como controladora de nematóides do solo. No entanto, as pesquisas da Embrapa Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro-RJ) apontam que seu uso como ração é uma alternativa interessante como fonte protéica para animais de médio e grande porte. O produto será apresentado no Show Rural Coopavel, exposição em Cascavel (PR), que acontece de 9 a 13 de fevereiro. Para tornar a ração um produto viável é preciso neutralizar a ricina e ricianina, substâncias tóxicas e alergênicas presentes nas sementes da mamona. Pessoas não protegidas e em contato contínuo com essas substâncias podem apresentar quadros de conjuntivite, faringite, dermatite e bronquite. Os altos teores em rações levam os animais à morte. De acordo com o pesquisador José Luis Asqueri, testes indicam que a detoxicação e desalergenização da torta pode ser feita por processos de extrusão combinados com outras variáveis como adição de ácidos, bases, sais e enzimas, cisalhamento e aquecimento da torta a temperaturas que variam de 80ºC a 140ºC, à seco, úmido ou vapor com diferentes tempos de exposição ao calor. "A equação destas variáveis determinará o processo mais eficiente para tornar a ração um produto seguro e de qualidade nutricional para animais. Essa iniciativa interessa a produtores de mamona que poderão criar sistemas mais integrados de lavoura e pecuária, otimizando os recursos via aproveitamento de co-produtos (resíduos) da extração do óleo de mamona", afirmou o pesquisador. O projeto é liderado pela Embrapa Agroindústria de Alimentos e envolve outras quatro unidades da Embrapa (Algodão/Campina Grande-PB; Caprinos e Ovinos/Sobral-CE; Agroindústria Tropical/Fortaleza-CE; e Biotecnologia e Recursos Naturais/Brasília-DF), além das parcerias das Universidades (Estadual do Norte Fluminense; e Federal de Alagoas) e da empresa I.C.B. Wooly Indústria e Comércio, de Mogi Mirim (SP). Esta é responsável pelos testes em escala industrial do processo de detoxicação. O Show Rural Coopavel (www.showrural.com.br) é uma oportunidade de integração entre produtores, empresários, técnicos e pesquisadores para discutir inovações na agricultura familiar, agroindústria, agroecologia, integração lavoura-pecuária, biotecnologia, informática e meio ambiente. As tecnologias da Embrapa estarão organizadas em dois espaços: a Casa da Embrapa e a Vitrine Tecnológica.
Fonte : EMBRAPA CAPRINOS E OVINOS

sábado, 18 de abril de 2009

PECUÁRIA ORGÂNICA: PROCEDIMENTOS BÁSICOS PARA UM BOM MANEJO DA CRIAÇÃO

Quando falamos de animais, normalmente esquecemos do solo. Todavia, na produção orgânica - que privilegia a criação extensiva – um dos princípios básicos é reconhecer o solo como fonte de vida. A qualidade e o equilíbrio da fertilidade do solo (manutenção de níveis de matéria orgânica, promoção da atividade biológica, reciclagem de nutrientes e intervenção controlada sem destruição do recurso natural) são essenciais para a sustentabilidade da propriedade. Assim, na produção orgânica, a saúde animal também está ligada à saúde do solo.
Outro ponto básico é a diversificação da propriedade, que pode ser alcançada com um manejo que utilize o policultivo, pastagens, sistemas agroflorestais, rotações de culturas, cultivos de cobertura, cultivo mínimo, uso de composto e esterco, adubação verde, quebra-ventos e áreas de reserva de mato. Este tipo de manejo potencializa a reciclagem de nutrientes, melhora o microclima local, diminui patógenos e insetos-praga, elimina determinados contaminantes e conserva e melhora a fertilidade do solo e a qualidade da água. É evidente, que as particularidades de cada sistema vão influenciar nestes resultados. No entanto, a diversificação por si só não é suficiente para a otimização do sistema. Faz-se necessário analisar a compatibilidade e complementaridade das explorações, visando a uma maior integração. Ou seja, a diversificação deve ser planejada de forma a integrar um conjunto produtivo (agricultura, floresta e animais), no qual cada atividade esteja relacionada na troca de materiais e benefícios com as outras. Esse procedimento visa impedir que a diversificação gere um sistema de produção descoordenado. Por isso, o planejamento é um requisito fundamental para um bom aproveitamento do potencial da propriedade, fator que permitirá uma maior independência do produtor. O objetivo de apresentar alguns procedimentos básicos para o manejo animal é a obtenção de uma produção orgânica satisfatória mantendo os animais em bom estado de saúde, sobretudo por meio de ações preventivas. Os principais procedimentos para manejo das pastagens, manejo do rebanho e instalações, nutrição e tratamento veterinário são apresentados resumidamente abaixo.

PROCEDIMENTOS TÉCNICOS PARA PRODUÇÃO ANIMAL EM AGRICULTURA ORGÂNICA

ATIVIDADES:

MANEJO DE PASTAGENS

PROCEDIMENTOSRECOMENDADOS
Uso de técnicas de manejo e conservação de solo e água; nutrição das pastagens de acordo com as recomendações; controle de pragas, doenças e invasoras das pastagens de acordo com as normas;
Pastagens mistas de gramíneas, leguminosas e outras plantas (diversificação);
Pastoreio rotativo racional, com divisão de piquetes; manter solo coberto, evitando pisoteio excessivo;
Rodízio de animais de exigências e hábitos alimentares diferenciados (bovinos, eqüinos, ovinos, caprinos e aves);

RESTRITOS
Fogo controlado para limpeza de pastagem;
Pastoreio permanente sob condições satisfatórias;
Estabelecimento de pastagem em solos encharcados, rasos ou pedregosos;

PROIBIDOS
Monocultura de forrageiras;
Queimadas regulares;
Superlotação de pastos;
Uso de agrotóxicos e adubação mineral de alta solubilidade nas pastagens;


MANEJO DO REBANHO E INSTALAÇÕES

PROCEDIMENTOSRECOMENDADOS
Raças animais adaptadas à região; raças rústicas; aquisição de matrizes de criadores orgânicos; animais de fora devem ficar em quarentena;
Instalações adequadas p/ o conforto e saúde dos animais, fácil acesso à água, alimentos e pastagens; espaço adequado à movimentação;
Número de animais p/ área não deve afetar os padrões de comportamento;
Criações de preferência em regime extensivo ou semi-extensivos, com abrigos; No caso das aves, deve haver espaço para acesso à pastagem;
Monta natural para reprodução; e desmame natural;

RESTRITOS
Raças exóticas não adaptadas; Bezerros podem ser adquiridos de convencionais até 30 dias; Aves de até 3 dias podem ser adquiridas de qualquer procedência;
Inseminação artificial sob controle;
Separação dos bezerros por barreiras;

PROIBIDOS
Raças exóticas não adaptadas;
Estabulação permanente de animais;
Confinamento e imobilização prolongados;
Instalações fora dos padrões;
Manejo inadequado que leve animais ao sofrimento, estresse e alterações de comportamento;


NUTRIÇÃO E TRATAMENTO VETERINÁRIO

PROCEDIMENTOSRECOMENDADOS
Auto-suficiência alimentar orgânica; forragens frescas, silagem ou fenação produzidas na propriedade ou de fazendas orgânicas;
Aditivos naturais para ração e silagem (algas, plantas medicinais, aromáticas, soro de leite, leveduras, cereais, outros farelos);
Mineralização com sal marinho;
Suplementos vitamínicos (óleo de fígado peixe e levedura);
Homeopatia, fitoterapia e acupuntura;
São obrigatórias as vacinas estabelecidas por lei, e recomendadas as vacinações para as doenças mais comuns a cada região.

RESTRITOS
Aquisição de alimentos não orgânicos, equivalente a até 20% do total da matéria seca para animais monogástricos e 15% p/ ruminantes
Aditivos,óleos essênciais, suplementos vitamínicos, de aminoácidos e sais minerais (de forma controlada);
Agentes etiológicos dinamizados (nosódios ou bioterápicos).
Amochamento e castração;

PROIBIDOS
Uso de aditivos estimulantes sintéticos; Promotores de crescimento; Uréia; Restos de abatedouros; aminoácidos sintéticos; Transferência embriões;
Descorna e outras mutilações;
Presença de animais geneticamente modificados;

NOTA: A título de esclarecimento, os procedimentos “recomendados” referem-se a práticas e produtos plenamente aceitos em agricultura orgânica, podendo ser utilizados sem restrições. O uso “restrito” relaciona-se a práticas e produtos que não são plenamente compatíveis com os princípios da agricultura orgânica, devendo ser limitados a usos específicos, como no caso do período de conversão. Os procedimentos “proibidos” referem-se a práticas e produtos não permitidos nos programas de certificação. O uso dessas práticas ou substâncias constitui transgressão grave, que pode resultar em cancelamento do contrato e do uso do selo oficial de garantia.
De acordo com os princípios da agricultura orgânica a atividade animal deve estar, tanto quanto possível, integrada à produção vegetal, visando à otimização da reciclagem dos nutrientes (dejetos animais, biomassa vegetal), uma menor dependência de insumos externos (rações, volumosos) e a potencialização de todos os benefícios diretos e indiretos advindos dessa integração. Portanto, como comentamos, é importante que a criação seja planejada de forma a se integrar nas demais atividades da propriedade. Na prática, a produção animal ainda está pouco integrada à produção vegetal.
No que diz respeito à alimentação dos animais, as normas recomendam a produção própria dos alimentos orgânicos (volumosos e concentrados) por meio da formação e manejo das pastagens, capineiras, silagem e feno. Neste aspecto, é importante que a maior parte da alimentação seja orgânica e venha de dentro da propriedade. Além dos bovinos, a alimentação de outros animais, deve ser complementada com material verde fresco (hortaliças, rami, guandu, gramíneas e outros). Inicialmente, os animais deverão ser alimentados com no mínimo 50% de produtos orgânicos. Com o passar do tempo serão toleradas percentagens de no máximo 20% de alimentação de origem não orgânica.
Em relação ao tratamento veterinário, o objetivo principal das práticas de criação orgânicas é a prevenção de doenças. Saúde não é apenas ausência de doença, mas habilidade de resistir a infecções, ataques de parasitas e perturbações metabólicas. Desta forma, o tratamento veterinário é considerado um complemento e nunca um substituto às práticas de manejo. O princípio da prevenção sempre vem em primeiro lugar e, quando é preciso intervir, o importante é procurar as causas e não somente combater os efeitos. Por isso, é importante a busca de métodos naturais para tratamento veterinário. O tratamento homeopático já vem sendo utilizado com bons resultados e diminuição de custos.
Em relação ao manejo do rebanho, as instalações (galpões, estábulos, galinheiros e outros) devem ser adequadas ao conforto e saúde dos animais, o acesso a água, alimentos e pastagens também deve ser facilitado. Além disso, as instalações devem possuir um espaço adequado à movimentação e o número de animais por área não deve afetar os padrões de comportamento. De forma geral, sugere-se que o regime de criação seja de preferência extensivo ou semi-extensivo, com abrigos. As mutilações de animais e utilização de substâncias destinadas à estimular o crescimento ou modificar o ciclo reprodutivo dos animais são contrários ao espírito da produção orgânica e, portanto, são proibidos. O transporte dos animais deve ser efetuado de forma a respeitar os animais, evitando qualquer tipo de brutalidade inútil. Além disso, o abatedouro deve ser o mais próximo possível das propriedades.
Em síntese, a qualidade de vida do animal tem profunda relação com a possibilidade do animal adoecer. Assim, um animal que é confinado com grande concentração de indivíduos, espaço limitado para locomoção, sem possibilidade de expressar seus modos naturais de comportamento, fica profundamente perturbado, sujeito a manifestações de estresse e sistema imunológico. Como qualquer indivíduo nessas condições, os animais ficam mais propensos a doenças. Além de ajudar no equilíbrio técnico e ecológico da propriedade, a produção animal contribuí eficazmente na geração de renda. Para se ter uma idéia, de um conjunto de 57 propriedades orgânicas que acompanhamos na região metropolitana de Curitiba, as que obtiveram melhor desempenho econômico foram aquelas que tinham a produção animal como “carro-chefe”, aliado à transformação de produtos vegetais. Todavia, constatamos algumas dificuldades para expansão mais rápida da pecuária orgânica.
Segundo os criadores que mantivemos contato no estudo citado anteriormente, para o produtor que está iniciando na pecuária orgânica o principal entrave está relacionado à dificuldade de cumprir todas as normas exigidas pela certificadora, mostradas resumidamente no quadro 1. Além disso, existe o problema da comercialização de produtos animais orgânicos pela falta de uma legislação adequada aos alimentos orgânicos de origem animal. Para ilustrar a necessidade urgente de uma legislação para o setor, vale lembrar que no Paraná um grupo de agricultores do município de Witmarsun, a cerca de 60 km de Curitiba, já vêm produzindo leite orgânico, sem ter a autorização para constar no rótulo o nome “leite orgânico”. A saída dos produtores foi colocar no rótulo uma chamada dizendo que o leite foi produzido sem a utilização de ingredientes químicos desde a produção até o empacotamento.
Para finalizar, cabe destacar que ainda existe um grande trabalho de pesquisa e desenvolvimento a ser realizado para que os consumidores possam desfrutar de derivados de produtos animais orgânicos em quantidade, qualidade, diversidade e regularidade. De qualquer forma, existem muitas oportunidades e quem sair na frente terá um bom mercado para explorar.

Moacir Roberto Darolt, Engenheiro Agrônomo, Doutor em Meio Ambiente, Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Forragicultura: Sistemas Agrossilvipastoris

O Sistema Agrossilvipastoril é uma modalidade dos Sistemas Agroflorestais (SAF’s), em que se combina árvores, cultura agrícola, forrageira e/ou animais numa mesma área ao mesmo tempo ou de forma seqüencial, sendo manejados de forma integrada (Daniel et al. 1999).O Sistema Agrossilvipastoril é uma alternativa do uso da terra, contribuindo para reduzir os problemas decorrentes do desmatamento e da degradação de diferentes ecossistemas. Além do mais, apresentam vantagens em relação às monoculturas no que diz respeito à otimização da utilização dos recursos naturais, ao seqüestro de carbono para a redução do efeito estufa, tema tão discutido, atualmente. A consorciação de culturas pelos SAF’s podem fornecer bens, serviços e diversificação de produtos na propriedade, tais como: cerca vivas, sombra para culturas agrícolas e animais, quebra ventos, produção de adubos verdes, madeira, lenha, forragem, produtos medicinais e alimentos, dentre outros; além de ser uma alternativa para auxiliar na reversão do processo de degradação ambiental (Mac Dicken & Vergara, 1990).A escolha das espécies envolvidas é de fundamental importância para o sucesso e sustentabilidade do sistema. No entanto, essa escolha não é uma tarefa fácil, uma vez que esses sistemas são complexos e a formação, longevidade e persistência das plantas envolvidas estão diretamente relacionadas à interação entre solo x plantas x animal x condições ambientais x recurso financeiro do produtor. Desta forma deve-se atentar qual o nível tecnológico, os recursos possíveis para implementação do sistema, as condições edafoclimáticas da área, a finalidade de produção, as espécies e ou cultivares, hábitos de crescimento, bem como o potencial produtivo esperado. A implantação do sistema deve-se considerar alguns fatores como adubação adequada, espaçamento, arranjos dos componentes do sistema, densidade (Carvalho et al., 2001), porém por si só a implantação não garante o sucesso desse sistema, tendo-se então, que atentar para os fatores que levam a isso, que entre eles estão o planejamento, plantio correto e manejo do sistema como um todo.Os técnicos e profissionais têm que ter uma visão de integração dos componentes do sistema como um todo e não considerá-los isoladamente. Embora, o sistema seja mais complexo em relação ao monocultivo, a necessidade de uma maior atenção e tomadas de decisão não deve ser tidos como limitantes para a implantação desses sistemas em potenciais.Os Sistemas Agrossilvipastoris são determinados por três princípios básicos de sustentabilidade, ou seja, devem ser economicamente viáveis, ambientalmente equilibrados e socialmente justos. (Fabiana Lopes)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O PROJETO GAVIÃO E A EMBRAPA SEMI-ARIDO (SUDOESTE DA BAHIA)

O Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Rio Gavião ainda está em execução. No entanto uma certeza ele tem a oferecer: a possibilidade de se implantar processos econômicos dinâmicos baseados na pequena propriedade familiar. O primeiro estudo de avaliação dos impactos das suas atividades de transferência de tecnologia nas propriedades atendidas pelo Projeto, registrou um aumento da renda bruta média em cerca de 24%.
É um crescimento significativo que ressalta dois objetivos do Pró-Gavião. Primeiro, ele acontece em uma das áreas mais pobres da Bahia, onde estão registrados alguns dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos dentre todos os municípios do estado. O combate a pobreza é a principal meta perseguida pelo Projeto. Segundo, a elevação da renda é constatada num contexto nenhum pouco assistencialista, mas baseado na dinâmica produtiva do semi-árido e em uma visão de mercado, fundamentalmente, local, mas, também, de âmbitos regional e até nacional.
Este aspecto permite a avaliação otimista do projeto porque a infra-estrutura produtiva que se está instalando nas propriedades integrada a um processo de desenvolvimento sustentável baseado em tecnologia de baixo custo de convivência com a seca, um crédito agrícola compatível e organização associativa e cooperativa dos produtores. Nos treze municípios do Sudoeste baiano, na área de abrangência do Pró-Gavião, estes aspectos têm tirado as pequenas propriedades do estado de inércia que se encontravam a muitos anos, onde o produtor apenas sobrevive de forma precária, e levando-as a se constituírem como unidades de produção, geradoras de renda e de emprego.
Para a Embrapa Semi-Árido, os resultados que estão aparecendo com o Pró-Gavião no âmbito da pequena produção em áreas de seca, e como uma afirmação do seu programa de pesquisa e desenvolvimento e do seu amadurecimento institucional para firmar uma cooperação de alto nível com a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), da Secretaria de Planejamento do Governo da Bahia e financiamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). As competências técnicas estabelecidas nas duas instituições são responsáveis por concepção inovadoras de transferência de tecnologia, que tem tornado possível a agilidade na adoção das técnicas de manejo e produção agropecuária que impactam de forma muito positiva o rendimento das propriedades e das famílias.
O segmento produtivo do Projeto tem encadeado ações consistentes ao longo da sua execução. Um elemento fundamental para isso foi a execução do estudo de “Caracterização dos Sistemas de Produção em Uso” nas pequenas propriedades da área de abrangência do Gavião. Ele foi realizado antes do início das atividades e serviu para radiografar as estratégias produtivas e identificar potencialidades econômicas e planejar as intervenções mais efetivas. De certa forma, o itinerário de ações no âmbito do projeto foi estabelecido a partir desse estudo, de tipologias dos sistemas de produção em uso pelos produtores, realizado pela Embrapa Semi-Árido.
Esse estudo, por exemplo, motivou o empenho das instituições em operar a atividade pecuária como preponderante ao funcionamento sustentável das pequenas propriedades no semi-árido. Pesquisas da Embrapa têm revelado que os animais resistem (menor risco) melhor à seca que os cultivos de grãos (feijão e milho), tradicionalmente plantadas na região. Nesse estudo ainda, se revela que a matriz pecuária regional, bovina não é a mais adequada por se tratar de animais que exigem áreas expressivas de caatinga por criação animal – algo em torno de 15 ha para uma Unidade Animal. A criação bovina tinha sido estimulada indiretamente em política de crédito de instituição pública que passou a financiar cercas com quatro arames, que não impedia animais como caprinos e ovinos de serem contidos na propriedade, o que tornava o manejo difícil. A mudança da matriz pecuária de bovina para ovino-caprina foi embasada em outro estudo: Cadeia Produtiva Caprinos/Ovinos – Elementos para tomada de decisão. A estrutura fundiária das propriedades atendidas pelo Projeto (cerca de 50 ha) mostrava-se mais adequada à criação desses animais de porte pequeno, pois mantinha uma relação melhor entre a capacidade de suporte da área e o tempo de abate.
Enfim, o Projeto Gavião tem sido um excelente ambiente, pela sua formatação, para disseminação das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa Semi-Arido, tanto que a infra-estrutura produtiva que se está montando na área do Projeto tem conseguido alterar algumas tendências já comuns na região: os produtores abandonarem suas famílias e propriedade na época de seca e partir para São Paulo, em busca de trabalho. Hoje, já se ouve muitas histórias de que há uma tendência em sentido inverso: quem está fora ouve notícias animadoras de oportunidades de trabalho, de crédito e planejam retornar às suas terras.
(Robert Coelho Correia)

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"Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, e depois perdem o dinheiro para a recuperar. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro.
Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido..." (Confúcio)

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